COMO MUDAR UMA MÁ CULTURA?

Cleber Fernandes
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Só resolvi escrever este texto agora porque não queria ser injusto com ninguém (entenda-se por injusto aquele que pratica a injustiça e não aquele que desfavorece um político para favorecer outro).

            Também não quero falar de coisas pontuais, seja das administrações passadas de Canindé, seja da atual. O meu alvo é muito mais pretensioso, embora ser pretensioso não seja uma de minhas muitas características. Meu alvo é a forma cultural de que os administradores de Canindé nomeiam seus “braços direitos” para administrar, neste caso específico, os secretários públicos municipais.

Quero falar exatamente, sem pôr e sem retirar nenhuma palavra ou acento gráfico que, durante muito tempo, os secretários municipais de Canindé sempre foram escolhidos sem nenhum critério técnico para o cargo, sendo escolhidos apenas por critérios puramente políticos, visando sempre o retorno em votos. E vão me perguntar: o que você usa para fundamentar essa crítica construtiva? Uso a lógica visível de que os secretários públicos municipais não sabem fazer projetos que tragam benefícios para o povo. Isso dentro de suas pastas específicas e, se algum deles sabe, não o faz. Não faz porque a cultura adotada quando se incorpora na pasta não permite que o indivíduo se aproprie de tal ação. E tem mais: quando faz algum projeto que vise o bem estar do povo, a obra falta não ter mais fim, e quando tem fim, tem falhas, ou é mal acompanhada porque o bendito critério de tecnicidade, pressuposto mais do que necessário para que o mesmo assuma a pasta, não há, aliás, nunca existiu. E por quê? Porque simplesmente não tem formação específica para a área da pasta em que é secretário, caracterizando, assim, o velho “jeitinho brasileiro”, tantas vezes enraizado em nossa cultura brasileira conformista.

O que poderemos fazer para mudar essa cultura? Bem, segundo o filme Skyfall, o ator Javier Bardem, ao interpretar o personagem Raoul Silva (verdadeiro nome Tiago Rodriguez), ex-agente do MI6 e super terrorista-cibernético, contracena com o ator Daniel Craig que interpreta o agente 007, James Bond, explica ao mesmo uma dada situação em que a cultura foi mudada. A cena começa assim:

“- Olá, James!
- Bem vindo! Gostou da ilha? Minha avó tinha uma ilha. Nada pra se vangloriar. Dava-se uma volta nela em uma hora, mas ainda assim era um paraíso pra nós.
- Um verão, fizemos uma visita e descobrimos que o lugar estava infestado de ratos, chegaram num barco de pesca e passaram a se alimentar de coco. Como se elimina os ratos de uma ilha, hum? Minha avó me ensinou. Enterramos um barril e deixamos ele aberto, depois colocamos um coco como isca, aí os ratos vão em busca do coco e, põe, põe, põe, põe, põe, põe, eles caem no barril. E depois de um mês prendemos todos os ratos. Mas o que fazemos depois? Jogamos o barril no oceano? Queimamos ele? Não! Deixamos ele ali. Os ratos começam a sentir fome e um a um começam a se devorar, até que só restam dois. Os dois sobreviventes. E depois disso matamos eles? Não! Pegamos eles e os soltamos nas árvores, mas agora eles não comem mais coco, agora eles só comem rato. Mudamos a natureza deles. Os dois sobreviventes.”

Estão vendo? Por pior que seja a situação, nós podemos mudar a natureza cultural arraigada, principalmente se esta cultura impulsiona ao despreparo que culmina no erro.
Ademais, sugiro que cada secretário que for assumir alguma pasta municipal cumpra determinadas cargas horárias com o fito de aprender a fazer projetos que tragam dinheiro para suas pastas, seja dinheiro estadual ou federal. Não estou aqui dizendo que os secretários sejam incompetentes, porque o básico dentro de suas realidades eles procuram fazer, o que digo é que falta mais, muito mais e aprender a fazer projetos é a primeira possível saída. Eu aqui não vou procurar saber qual o critério utilizado para a escolha dessas benditas almas, apenas não quero cair na mesmice de falar em culpados ou responsáveis para esse problema, pois ao mesmo tempo em que ataco o erro quero também sugerir propostas de melhoria, pois quem deve ir para o inferno é o erro e não o errado.Pois bem, mas o que é projeto? Bem, segundo Maximiano (2010, p. 04-05),

A palavra projeto pode ser usada com vários sentidos: intenção (tenho o projeto de fazer um curso), ideal (um projeto de sociedade; de governo), esboço (ainda não é um livro, é apenas um projeto; projeto de lei), desenho (projeto da nova casa), e até mesmo a concepção física de um objeto (a nova casa é um belo projeto – aqui, com o sentido de design). Há também o sentido existencial, especialmente quando se fala de projeto de vida. Todos esses sentidos são de uso corrente. Neste livro, a palavra projeto será usada no sentido de empreendimento intencionalmente orientado para um objetivo. Nesse sentido, projeto é (Figura 1.1):
- Um empreendimento ou esforço planejado, que deve entregar um resultado singular.
- Orientado para uma mudança benéfica.
- Definido por objetivos de ordem quantitativa e qualitativa.
- Realizado por recursos organizados de forma também singular.
- Dentro de restrições de prazo e custo (Turner, 1999). Estamos cercados de todos os lados de resultados de projetos, que vêm sendo realizados desde o tempo dos faraós. Pirâmides, canais de irrigação da Mesopotâmia, templos gregos, monumentos, cidades e estradas romanas, catedrais medievais, muralha da China, castelos da Renascença, viagem à Lua, canal do Panamá, torre Eiffel, autoestradas, shopping centers, a casa em que você mora. Todos os tipos de produtos e equipamentos que usamos um dia foram projetos. Os projetos são temporários, mas os resultados são duradouros. Projetos sempre são estratégias de mudança, seja para resolver problemas ou aproveitar oportunidades na situação presente, ou por antecipação de situações no futuro (Boutinet, 1992). Os projetos criam inovações destinadas ao mercado (novos produtos, novas tecnologias), à sociedade (novas instituições) ou a processos de renovação interna nas organizações (novos sistemas). Tudo isso conduz incessantemente a novas situações, que geram novos projetos, num ciclo que se repete. As mudanças nas organizações e nas sociedades dependem de projetos – primeiro, da intenção; em seguida, do empreendimento organizado. A criação da América e da União Europeia, a reconstrução após a Segunda Guerra Mundial, as reformas administrativas e urbanas, a implementação de políticas, a mudança tecnológica, o enfrentamento coletivo das crises globais econômicas, ecológicas e de saúde – são exemplos de mudanças possibilitadas por projetos de nações e comunidades de nações. A entrega do resultado singular, ou produto, e o atendimento do prazo e do custo programados são as três medidas imediatas da avaliação do sucesso do projeto. Em seguida, as três serão analisadas.

            Trago agora uma matéria veiculada no site da globo.com em 19/10/2008 onde o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que

não faltam recursos para as prefeituras brasileiras por parte do governo federal. Segundo Lula, o que falta é projeto factível. O presidente discursou no palanque do candidato petista a prefeito, Luiz Marinho, e afirmou que até 2010 haverá R$ 504 bilhões do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) a serem gastos pelo governo, descartando rever o planejamento por conta da crise financeira internacional.
- Vou dizer em alto e bom som para todo mundo ouvir: não falta dinheiro para fazer as coisas neste país. Quem está dizendo para vocês é o presidente da República. O que falta é projeto. Eu duvido que um prefeito apareça em Brasília apresentando um projeto de R$ 40 milhões, R$ 50 milhões, R$ 60 milhões e que alguém vá dizer para ele que não tem dinheiro. O que precisa ter é o projeto. O presidente, falando para um público estimado de dez mil pessoas, segundo os organizadores do comício, continuou:
- A gente não dá dinheiro é para idéia. Isso a gente investe no Ministério da Ciência e Tecnologia. Mas se alguém aparecer lá com um projeto factível, que a gente possa medir e ver que dá para fazer, sim. Segundo Lula, dos R$ 504 bilhões do PAC, R$ 40 bilhões são para saneamento básico e R$ 26 bilhões para habitação.
- Tem prefeito que apresentou projeto e que não conseguiu executar. Esse dinheiro, obviamente, tem de ser transferido para outra cidade, que tenha outros projetos. É por isso que a cada final de ano a gente faz um ajuste para saber quem é que está cumprindo o projeto ou não. Lula acenou com verbas do PAC para o candidato Marinho, desde que ele, se eleito prefeito, apresente os projetos.
- Não espere a posse, comece a trabalhar.

Canindé não é, nunca foi e nunca será um caso isolado do resto do mundo, isso todos nós sabemos e também não quero dizer que essa má cultura de nomear secretário sem experiência na área seja apenas um erro cometido aqui, porque se pensarmos assim, então será um engano incomensurável. Mas o que digo é que, enquanto cidade encravada no sertão central de um dos países mais extensos do mundo, podemos sim fazer diferente. E não venham me dizer que conhecimento técnico não é importante, porque se fosse assim professor não estudava quatro anos para se formar, simplesmente dava aulas tendo apenas o ensino médio. E outra, boa gente nós temos que queira fazer as coisas acontecerem, isso não falta, o que falta é conhecimento de como fazer, de como traçar a trilha para chegar à mina de diamante e, chegando lá, saber como extrair a pepita.
Para finalizar, gostaria de falar para vocês que me acompanham até aqui sobre a obra de pavimentação asfáltica da Avenida José Veloso Jucá, Euclides Barroso e Joaquim Magalhães, orçada num total de R$ 1.035.905,54 (um milhão, trinta e cinco mil novecentos e cinco reais e cinquenta e quatro centavos), com prazo de entrega para 60 dias, cuja empresa responsável é a Guanabara Construções Ltda., cujo engenheiro responsável é o Sr. Francisco Camurça Teles CREA/CE 11639-D, verba oriunda do MTUR/TURISMO NO BRASIL, uma parceria entre governo federal e prefeitura municipal de Canindé. Todos esses dados retromencionados se encontram postos numa placa que está fixada no acostamento da Avenida José Veloso Jucá para qualquer cidadão acompanhar. Aqui não vou tratar da cultura do povo que não acompanha esses projetos públicos, pois merece ser tratado em texto autônomo, como disse, desde o início, meu foco é outro.

Aqui eu vou me deter apenas na única via que foi começado algum trabalho, refiro-me à Avenida José Veloso Jucá que, pelo que sei e calculei pessoalmente, a via está com apenas 1 kilômetro de pavimentação asfáltica recuperada, isso já faz, claro, mais de 60 dias. E de quem é a culpa? Como disse desde o início, não vou apontar culpados, pois se o fizesse, quem seria(m) ele(s)? O prefeito? O secretário que não acompanha a obra (no caso o da infraestrutura)? Da empresa? Do engenheiro da empresa? Bem, pelo que sei e pesquisei junto à prefeitura municipal, a obra parou por conta de...adivinhem? O projeto estava feito errado, pois a via ficaria menos larga do que costuma ser. É que quem fez o projeto não atentou para isso e, é claro, ninguém fiscalizou e, quando fiscalizou, já foi com bastante atraso, pois eu vi com meus próprios olhos a empresa corrigindo o defeito e alargando mais ainda a via, aliás, os cidadãos canindeenses viram. Todos viram.

Para finalizar eu gostaria de ratificar dizendo que este texto se trata de uma crítica construtiva, pois se em um projeto que eu prestei atenção tratam desse jeito, imaginem aqueles que são feitos sem que ninguém dê a mínima fiscalizada.

Não quero aqui mudar o mundo, quero apenas que terminem o mais breve possível a pavimentação asfáltica das ruas descritas na placa que se encontra fixada no acostamento da Avenida José Veloso Jucá. É que eu tenho uma motinha para andar, comprada com muito sacrifício e, há quase dois anos faço aquela rota para ir para a faculdade (curso Matemática no IFCE de Canindé) e não agüento mais gastar para mandar desempenar o pneu da minha moto e, acredito eu, seja um problema enfrentado por muita gente que faz aquele mesmo percurso todo dia, haja vista todos saberem que ali tem muitos buracos.
Sem mais para o momento, agradeço a atenção pela leitura e vamos mudar essa má cultura. Obrigado!

Francisco Robério Rocha Cruz
canindeense


Texto enviado a Assessoria de Comunicação do portal C4 noticias pelo leitor supracitado.

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1Comentários

  1. Magno Brito

    Olá Robério, excelente texto. Concordo com você em vários pontos. Seu texto demonstra a realidade da "política dos favores" que esta enraizada em Canindé. A política sempre foi sinônimo de poder, e o executivo para obter esse poder fica devendo diversos “favores”. Neste sentido, as secretarias são oferecidas em uma espécie de leilão para aqueles que investiram na candidatura do prefeito. Isso não é segredo. Ate os mais ignorantes percebem que há todo um jogo entre executivo, legislativo e as secretarias. Acredito ser esse o maior problema.

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